Vejam os seguintes exemplos: - No meio de uma consulta médica, a
filha de cinco anos insiste com seu pai que ela quer ir embora. "Querida, nós vamos ficar", responde calmamente pai.
- Na tentativa de obter um preço menor, um cliente insiste em desmontar a oferta de uma empresa de limpeza, separando os produtos de limpeza dos serviços de treinamento e
gerenciamento. "Nosso produto é um pacote completo", responde o representante da empresa.
- Ao telefone, ouvindo um bombardeio de insultos lançados por um importante investidor, o executivo de um hotel responde calmamente: "Entraremos em contato com o sr. amanhã sem falta", e desliga o telefone –para todos os efeitos dizendo "não" ao comportamento do cliente.
Em todos esses casos, o significado e poder do "não" foram transmitidos claramente, mas sem que a palavra fosse proferida. O "não" permaneceu subentendido, tácito.
Uma opção é focar a atenção no "sim" inicial e no "sim" final, deixando o "não" implícito.
Por exemplo: diante da perspectiva de uma longa viagem de carro com um amigo que fala demais, você pode anunciar: "Que dia!… Hoje só quero um pouco de paz e tranqüilidade. O que você acha de irmos ouvindo um pouco de música em silêncio para relaxar?" Em outras palavras, basta apenas apresentar a sua posição e complementá-la com uma proposta concreta.
Outra opção é reformular o "não" como um "sim". Em vez dizer a seu filho: "Nada de brincar enquanto não acabar a lição de casa", você diz: "Você poderá brincar assim que terminar a sua lição".
Em vez de dizer a um colega de trabalho: "Não posso ajudá-lo enquanto eu não acabar este serviço", diga: "Terei o máximo prazer em ajudá-lo assim que eu completar este serviço". Em vez dizer a um amigo: "Não irei com você ao jogo", diga: "Encontro você logo depois do jogo". Em outras palavras, coloque o seu foco no positivo ao mesmo tempo em que estabelece os limites necessários.
Maneiras indiretas de dizer "não" podem ser confusas – Algumas culturas, particularmente as do leste da Ásia, não poupam esforços para idealizar maneiras de dizer "não" sem empregar realmente a
palavra, evitando assim envergonhar o interlocutor e permitindo a ele salvar as aparências.
Porém, o fato de não usarem a palavra "não", não significa que
não digam o "não", apenas que buscam maneiras indiretas de fazê-lo, como recorrer a terceiros ou lançar sinais discretos e sutis.
Isso pode ser muito confuso para aqueles que não forem bem versados na semiótica de uma cultura diferente. Veja este caso: Durante um trabalho que realizei para uma grande empresa automobilística norte-americana, soube do caso de um alto
executivo que foi visitar a Coréia do Sul e se reuniu com o presidente de uma montadora coreana. Na época, a empresa dos EUA detinha 10% das ações da empresa coreana e o executivo propôs a seu colega que essa participação aumentasse para 50%. "Isso não é impossível", respondeu educadamente o executivo coreano.
Analisando essa resposta, o executivo norte-americano raciocinou:
"Se "isso não é impossível", significa então que é possível". De modo que, quando voltou para Detroit, enviou uma equipe de alto nível até Seul para fechar o acordo.
Mas, durante duas semanas, nada aconteceu, pois cada reunião
marcada era sempre e inexplicavelmente adiada. Por fim, um gerente coreano levou seu colega norte-americano para um canto e explicou-lhe que "Isso não é impossível" era apenas uma maneira educada de dizer "Nem morto".
O importante é ter em mente que embora a palavra "não", nem sempre precise ser pronunciada, a intenção sempre tem de ser transmitida de maneira clara e vigorosa.
William Ury
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